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Poema da eterna presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,

de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,

que as dimensões do infinito não me perturbam.

(O infinito!

Essa incomensurável distância de meio metro

que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)

O que me perturba é que o todo possa caber na parte,

que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.

 

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,

de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.

E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas

porque eu não sou braço nem sou perna.

 

Se eu tivesse a memória das pedras

que logo entram em queda assim que se largam no espaço

sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;

se eu tivesse a memória da luz

que mal começa, na sua origem, logo se propaga,

sem que nenhuma se esquecesse de propagar;

os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminham sobre a Terra,

os meus ouvidos lembra-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram continentes,

a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a Terra.

 

Mas não esqueci tudo.

Guardei a memória da treva, do medo espavorido

do homem da caverna

que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;

guardei a memória da fome;

da fome de todos os bichos de todas as eras,

que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;

guardei a memória do amor,

dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,

que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;

guardei a memória do infinito,

daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,

em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,

à formação do Universo.

 

Tudo se passou defronte de partes de mim.


E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,

porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.

Já cá estavam.

Estão.

E estarão.


 
  António Gedeão (Rómulo de Carvalho), Poemas Póstumos. Enviado por Isabel Benítez.

No me atrevo a dar una traducción del poema, pero sí la de algunas palabras:

  • relva: hierba, prado
  • não: no
  • esgotar: agotar
  • esquecer: olvidar
  • lembrar: recordar
  • engolir: engullir
  • geleiras: glaciar
  • fome: hambre

   
 
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